sábado, 28 de março de 2009

Alcatéia de um lobo "só"


Luz da lua escapa entre as núvens desenhando a mais perfeita noite por todas aquelas montanhas tingidas de branco. Serenos pinheiros ocultam perfeitamente pequenos seres noturnos. Noite a dentro caminha uma criatura de pêlos tão alvos quanto a neve, seus olhos mal piscam, parecem sempre banhados de velhas histórias. Tempos que talvez não viverá mais. Oh, sim! Maldito tempo o tornara com uma aparência não muito convidativa. Nesses tempos, aprendeu a caminhar devagar, passo à passo, olhando para trás, sempre observando cada pegada desaparecer.
Era indecifrável, uma criatura a primeira vista inconsciente, que aprendeu a controlar todo seu instinto natural, selvagem. Diferente de alguns, parecido com todos. Talvez por isso fora espulso de seu lar, e agora já não era mais um Canis Lupus... Era alcatéia de um lobo só. Gostava muito das sombras, e nunca se perguntou para onde ir, apenas seguia! Ao menos isso a natureza lhe foi justa. Criatura moribunda, amiga da lua, talvez ninguém saiba o quanto ela se sente mal. Abrindo uma pequena sicatriz, feixando outras... Parece ser incurável! A senhora dor não a perdoa, não perdoa ninguém. Mais um uivo! À beira de um lago suas patas não mais congelam, num misto de preto e branco as estrelas caem no espelho d'àgua refletindo um ser frio, grosseiramente mudado... Marcado! Algumas cicatrizes, outras feridas sangram um pouco. Mas de cada uma delas ele lembra-se bem, e o fazem recordar perfeitamente o porquê se tornara o que é, especialmente a maior delas, a que ele deu os melhores momentos de sua vida, que nem a brisa gelada da mais fria noite de inverno morto poderá traze-la de volta num sono profundo.
Então, sobre suas patas ele se vira. Agora esse é o seu mundo e só há uma coisa mais importante do que ele mesmo, uma luz brilhante no céu todas as noites. A maior delas. Sua melhor amiga.

domingo, 8 de março de 2009

Conto: "Diga-me Porque"


Era fim de tarde nas planícies lacustres finlandesas, a neve caía em pequenos flocos tão leves quanto uma pena. O céu tinha um tom roxo-avermelhado e o vento carregava o uivar de uma alcatéia de lobos que passava a leste não muito longe dalí. Naquela região entre as florestas de coníferas, Marko chegava em seu lar. Era uma casa grande, bela, ótima vista para os lagos rasos, uma sala enorme onde havia uma lareira, um piano e um ar muito aconchegante e luxuoso. Logo acima ficava vários quartos, mas só um deles em uso pelo próprio Marko, um homem que apesar de todo conforto e bens materiais mais do que necessários, não era tão feliz, não se sentia completo, sua vida se resumia a andar pelos ares gelados com um trenó e seus cães de neve, seus melhores amigos desde o verão de 1996. Era tudo que Marko precisava. Talvez.
Logo após abrigar seus fiéis companheiros, destrancou a porta de casa, entrou e não se preocupou em certificar que estava tudo no seu devido lugar, como havia deixado 1 semana atrás.
Olhou o piano e foi em direção a ele, ajeitou-se e tocou a primeira nota, a segunda e assim uma linda melodia tão familiar que em pouco tempo não ouvia nenhum som, só lembranças quase vivas. Seus dedos dançavam sobre as teclas mas sua mente e seu coração estavam em outro lugar muito além dalí. Marko decidiu parar, levantou-se e caminhou até a lareira que com um simples apertar no controle, acendeu. Pensou como seria sua vida se ele tivesse total controle sobre tudo, se tudo girasse ao seu comando. Sem graça, talvez.
Foi até o bar, uma boa dose de vodka na mão direita e uma caixa rústica abraçada ao corpo. Marko acomodou-se em frente a lareira, em seu lugar favorito da casa. Abriu a caixa. Passado e presente agora confusos, desejos traídos.
Ela era linda! Lembrou dos passeios, das estrelas cadentes daquelas noites quentes do Brasil.
-''Quentes até demais''.- Risos.
A mulher dos belos cabelos vermelhos, ele pôde ver olhando no fogo da lareira como os cabelos dela eram beijados pela brisa nas praias de Angra dos Reis. Ótimas lembranças, belos tempos.
Não tão belas quando no dia seguinte o anjo da sua vida soltou suas mãos. Não, ele não sabia o porquê.
-"Temos que repensar isso" - Ela disse. Sem mais. Só 3 horas depois, quando Marko caminhava pelas dunas, ele entendeu o recado. Sem reação deixou-a lá, com aquele estranho de cabelos longos. Sentiu raiva. Chorou como uma criança e se recompôs como um homem. Estava decidido a manter seu coração congelado, para evitar que ele se partisse em dois novamente. Sumiu dalí.
Voltando do fundo da sua poesia de demônios, fechou sua caixa e olhou pros lados como quem levanta do mais profundo sono. A dose de vodka no fim, o dia no seu começo.Ele tinha que seguir.
Levantou e fez tudo o que tinha que fazer, uma ducha e uma bela refeição, arrumou algumas coisas e voltou à sala, fotos e cartas no chão. Juntou tudo e logo após assistiu o fogo engolir cada pedaço daquilo, mas no fundo sabia que as velhas mentiras não morreriam. Desligou a lareira, trancou a casa, e com um assovio, convidou seus fiéis amigos para uma volta sem rumo. Voltaria mais tarde. Talvez.