sábado, 31 de outubro de 2009

Ventrílouco.



Ele olha o reflexo no espelho, e não gosta do que vê. A cor desbotada, o corpo sem volume, um ventríloco de si mesmo. Jogado. Seus fios se entrelaçaram e ele não sabe como se mover, como agir. Sempre tropeçando a cada passo. Invejando vidas, que parecem ser tão belas longe da sua. Suas escolhas são sempre erradas, as piores possíveis. Em seu questionário, para cada A e B, sempre existiu um C. Sete vidas de um homem que passaram por ele, sete túmulos... um para cada amor que ele construiu. Apenas uma vez ele quebrou o seu maldito coração. Agora. Não importa o quanto ele mude, sua natureza sempre trará sua essência à tona, porque certas coisas são imutáveis. Então, seu coração é cheio de remendos, mas ninguém pode ver, ele não é tão notável assim. É apenas um boneco, velho e empoeirado. Mais um remendo não o deixaria mais feio... Seu único sonho é ter alguém que o pinte de uma cor diferente do cinza ou que costure uma abertura no seu peito esquerdo. Pobre boneco... Todos passam por ele, em sua face um sorriso falso, que de nada valeria se não fosse a alegria momentânea de qualquer pessoa. Já fora chutado e até mesmo mutilado... Talvez seja o mais infeliz dos brinquedos, mas seu sorriso continua lá. O que poderá fazer além de aceitar sua condição? Bonecos só se tornam humanos em contos de fadas... Ele nunca ganharia um certo coração... O daquela mulher, que sempre o acha no fundo do baú, em meio a tantos brinquedos mais interessantes, com luzes e até vozes. Ela sempre pega o boneco cinza e remendado, mexe em seus pés, suas mãos, e o põe contra a luz. Ela lhe dá uma voz e movimentos escandalosos... Um sorriso verdadeiro. Ele contempla tanto aquela moça que lhe dá uma pequena vida, sua cor morena e seus longos cabelos... Queria ser humano o bastante para beijá-la. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe! Pobre boneco, ela nunca conseguirá o ver... Ele precisa tanto dela para ter um propósito e para se tornar real. Ela precisa dele, para fugir dos dias mais cruéis, para transpor sua realidade... Até que ele esteja velho e quebrado demais.

sábado, 3 de outubro de 2009

"Madallenna"




Todos os seus sonhos, parecem inalcançáveis a cada manhã. Esperando na encruzilhada, caindo por terra e assistindo o Sol pondo-se ao longe. Ele viu as sete maravilhas, velejou pelos sete mares, caminou e falou com anjos. Em seu quarto não há sombras na parede, a luz não pode entrar porque ele fechou as janelas... Mas, na parede há um retrato de uma mulher, cujo amor ele confiou em suas mãos. Uma vela acesa, queimando até o final do mesmo jeito que todas as suas vontades. Os dias de ontem tornaram-se amontoados de que seus sonhos são feitos.
É uma noite fria lá fora, e o brilho da lua ilumina o caminho por onde quer que ele vá. "O silêncio da noite é a melhor canção que se pode ouvir, quando estamos separados." Agora, um pouco longe de casa, mas nunca tão cansado deste lugar, sentindo falta do seu bom... Bom amor, e do seu doce abraço. É tudo que ele precisa. As criaturas da noite sabem bem, se ele fosse um rei, tesouros e riquezas não significariam nada se apenas ele tivesse o seu coração. De novo. Talvez fosse bom, bom demais para ela.
Em uma pedra, tão dura quanto seu coração e tão pesada quanto seus ombros cansados, ele decide repousar. A neve está congelando seu rosto, e ele não pode sentir mais suas mãos. Queria poder escrever um último verso de perdão, ainda que ela não acreditasse em suas palavras. Mas essas são suas últimas linhas, o momento em que os pesadelos vem à tona. A vida é apenas um longo e triste jogo. Ele jogou e perdeu. "Bebo o veneno mais sujo... Tão quanto você". Não sorria assim tão vagarosamente, porque ele está definhando, seu corpo caindo e o velho coração nunca mais pulsará da mesma forma. "Tantas coisas aconteceram, tantas pessoas passaram, mas você será a última coisa que verei." No fim da noite, ele transcenderá e todas as velas se apagarão.


"Adeus, amor."